Vaidade de vaidades: velhas e novas vaidades

Postado por Daniel Coelho no dia 7 maio, 2017

workaholic

SABEDORIA

A palavra que traduzida do hebraico quer dizer sabedoria é o hokmah e seu uso não se limita à tradição sapiencial. O vocábulo pode ter o sentido de habilidade manual e artística (Ex 28:3), dizer respeito à arte de governar (Is 10:13), à arte da magia e à adivinhação (Gn 22:8), à astúcia, à sagacidade (2Sm 13:3), à arte de pilotar e construir navios (Ez 27:8-9), à arte de fazer justiça no tribunal (1Rs 3:28). No fundo, todas as significações atribuídas ao termo possui uma dimensão prática e refere-se a habilidades inatas ou adquiridas.

A sabedoria não é dado inato a nenhum ser humano, mas construída dia após dia no mundo de divergências e absurdos que é a sociedade. É na prática da sabedoria que a sabedoria se realiza, pois a sapiencilaidade pressupõe um esforço continuado e ininterrupto. Uma vez descansado, pressupondo a ter alcançado, aquele que se pretende sábio confirma sua tolice.

Embora traduzidas pelo mesmo termo pela Septuaginta, a sophia grega não pode ser confundida com a hokmah hebraica. Esta não tem a ver com abstrações teóricas e exercícios puramente intelectuais como é o caso grego. Em contexto hebraico a sabedoria é fundamentalmente prática, ou seja, um saber que se relaciona com a vida concreta, a busca de um determinado modo de ser e viver onde há realização pessoal e comunitária. Em outras palavras, é a capacidade de bem conduzir a própria vida a partir de um olhar atento e refletido sobre a realidade.

A sabedoria era aprendida na vida e voltava-se para a vida. E por vida nos referimos a todas as dimensões da experiência e da sensibilidade humanas. Na experiência compartilhada pelos anciãos havia sabedoria, na observância do luto, no jejum, no trabalho diário, durante as refeições. Em cada canto da humanidade a sabedoria era possível e, desde que os olhos daqueles que a buscam estivessem abertos e atentos ao seu redor e que houvesse o temor de Javé em seus corações, qualquer pessoa diligente poderia acessá-la.

No esforço deste breve texto nos interessa analisar em linhas gerais a natureza sapiencial do texto de Eclesiastes, ou Qohelet, no que diz respeito à relação do homem com o dinheiro.

QOHELET

“Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém” (Ec. 1:1). Essas são as palavras de abertura do livro de Qohelet. Por elas e pela tradição judaica não há dúvidas: Salomão é o autor desta obra. Assim concordaram os exegetas até que no século XVII esse dado passou a ser questionado e no século XIX, a partir de estudos linguísticos, a autoria de Salomão foi finalmente recusada. Embora seja possível especular e até mesmo concluir a respeito de características do verdadeiro autor, tudo com que podemos trabalhar é com o autor implícito.

De acordo com Líndez (2011, p.168),

[…] não há como colocar em dúvida a fé judaica do autor. Mesmo assim, é coerente com todo o opúsculo a afirmação de que a Judéia é sua pátria de origem; e, embora pareça ser a Judéia, o lugar mais adequado é Jerusalém. Assim, pois, Qohélet certamente foi um judeu de Jerusalém, pertencente a uma família bem abastada, da classe alta ou da aristocracia, já que o humor espiritual que os ensinamentos refletem no livro é o de um aristocrata um tanto distanciado da realidade, que teria recebido esmerada educação e formação.

O texto escrito entre 300 e 200 a.C. tem por objetivo discutir o valor das obras e do empenho humano num contexto de vida breve. Para Qohelet toda a ação humana interessa à observação: “Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu” (Ec 1:13a). Os principais temas investigados no livro abordados são a brevidade da vida, o valor do trabalho, a relação com a riqueza, a religião e a injustiça.

Indubitavelmente o realismo era uma das características mais marcantes da sapiencialidade hebraica. Analisar as coisas como elas realmente são, sem maquiagens religiosas ou idealizações, era fundamental para o bom agir. De acordo com Charles e Wheeler (2003, p.111)

[…] os escritores sapienciais clássicos tinham, em vários aspectos significativos, uma perspectiva consideravelmente distinta da dos autores responsáveis pelo Pentateuco, pelos escritos históricos, pelos livros proféticos e pelos Salmos. Para os sábios, o livro de Deus, completo e imutável, era o mundo das coisas criadas e das relações humanas. E era a observação das coisas tal como são – e não a revelação divina – que produziria o conhecimento e, em última análise, depois de anos de experiência e de contemplação, a sabedoria.

O realismo em Qohelet é claro, sendo por vezes confundido com pessimismo. Não existe fantasia na leitura que o autor deste livro faz do mundo. Não há traço de romantismo e idealização em seu texto. O ser humano é o que é, o mundo é o que é e nada mais. Qohélet assume que “[…] há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade.” (Ec 7:15). Sob essa constatação, feita também por Jó e por Jesus (Jo 9:2-3), o autor não consegue concordar com a equação proposta pela Teologia da Retribuição.[1]

Esta teologia compreendia que a prosperidade e a satisfação de vida era a implicação necessária da atitude positiva frente à prática da religião e, da mesma maneira, a infelicidade e a pobreza consequência de atitude negativa. Neste sentido a paga pela escolha feita por um caminho ou outro seria inevitável e irrecusável. Tal proposta determinista e de simplismo binário pela qual justos e injustos se distinguiam de forma evidente nos lugares sociais de prestígio ou desprestigio era lugar-comum na reflexão teológica de Israel e é o princípio adversário daquele apresentado por Qohelet.

Contrariando os absolutos impostos pelo tradicionalismo – que, sem considerar o mundo como ele é e sem sequer dar atenção às perguntas de seu tempo, trabalha no campo do irreal para oferecer respostas pelas quais poucos se interessam – Qohelet vê no apego a dogmas como o da retribuição um grande limitador para aquele que deseja ser sábio. O método teológico do autor pode ser percebido na expressão “eu vi”, recorrentemente usada no texto. Tal expressão remete à concretude das circunstâncias sobre as quais o sábio se dispõe a refletir. Seu esforço não é no sentido de construir mais um item no já extenso aparato legal hebreu de modo a determinar um tipo padrão de comportamento para o povo hebreu. Sem ser tomado por uma revelação, Cohelet apresenta uma leitura daquilo que percebe sob o sol e não sobre ele, ou seja, analisa aquilo que ele pode ver e a isso se limita.

A recusa em conformar-se à ilusão da religiosidade de seu tempo e sujeitar-se aos seus dogmas não faz de Qohelet um cético. Evidência disso é a conclusão de seu texto que resume tudo o que foi dito no temor de Deus e na observância da lei.

De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más. (Ec. 12:13-14)

Não só o autor de Qohelet, mas também os autores de Salmos, Provérbios (p.ex.: em 9:10) e Jó (p.ex.: 28:28) concordam que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Sl 111:10a). Sendo um valor tão relevante para a sabiencialidade é fundamental compreendermos o que era entendido por temor no contexto de Qohelet.

Às expressões Yir’ah e eyr que podem ser traduzidas, respectivamente, por temor e temer, cabem significados distintos se consideramos o contexto do AT e o nosso. O temor em seu sentido psicológico elementar corresponde a medo e é esse o significado atribuído por nós atualmente no uso corriqueiro do termo. No AT temor correspondia à “especial sensação reverencial que experimenta o homem crente e, portanto, religioso, perante a Majestade divina”.[2] Por esse sentido relacionamos temor à postura de respeito e de afeto que levaria àquele que teme a assumir um compromisso com daquele que é temido. Por essa perspectiva amor e temor coexistem em perfeita harmonia e se completam na relação do homem com o Divino.

Líndez (1999, p.446) sustenta que as mazelas que fazem sofrer o homem não é motivo em Qohelet para duvidar da existência de Deus ou julga-lo injusto. Antes essa aparente contradição entre a onipotência de Deus e o sofrimento prova que a vida é mais complicada do que imaginamos, que somos todos muito limitados e que pouco ou nada sabemos a respeito dos modos de domínio e a dinâmica do governo de Deus sobre sua criação.

VAIDADE DAS VAIDADES, A BUSCA PELA RIQUEZA É VAIDADE

Qohelet soma coro com os profetas na desconfiança de que a riqueza é necessariamente fruto da justiça e da piedade. A tendência oriunda da teologia da retribuição não encontra lugar no autor. A perícope de Ec. 5:10-6:9 é dedicada a esse tema e a partir deste ponto analisaremos mais atentamente esse trecho tentando buscar as lições de Qohelet que são aplicáveis em nosso contexto.

Em admoestação direta Qohelet diz que “Quem ama o dinheiro[3] jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda; também isto é vaidade” (Ec 5:10)

Interessante notarmos que o termo traduzido aqui por vaidade é hebel[4], que também tem o sentido de efemeridade e pode ser traduzido como vapor, sopro, vento e fumaça. Ler este termo no contexto deste livro, portanto, significa dizer que algo a ele associado é passageiro, é ilusão.[5] A imagem de uma miragem cabe bem ao propósito de ilustrar o sentido deste termo em Qohelet. O viajante que em meio ao deserto estando cansado e desidratado busca uma fonte de água e desesperadamente corre para o horizonte distante onde pensa ter visto um oásis, mas constata ao chegar bem próximo que ali não há nada além de mais areia escaldante. A miragem do oásis é hebel, tal como o amor ao dinheiro o é na perspectiva de Qohelet.

Por dinheiro devemos considerar mais do que a moeda em circulação no âmbito de um sistema econômico organizado, mas quaisquer meios pelos quais uma pessoa pode adquirir coisas, acessar lugares e conquistar fama. Qohelet não condena o rico ou a riqueza em si, mas a atitude de fazer da busca pela riqueza o sentido para a própria vida. O sabor da riqueza é o sabor da potência. Aquele que deseja ser rico não deseja uma coisa em si que uma vez alcançada gera satisfação e permite repouso. O amor pela riqueza é potencia que jamais se realiza. Aquele que ama a riqueza deseja, em outras palavras, a abstração do eterno poder possuir, para o qual não existem limites. Uma fome desse tipo, insaciável, traga a tudo e a todos ao redor daquele que a sente sem dimensionar estragos.

Em muitas das partes do texto Qohelet chama a atenção do leitor para o valor que tem o trabalho justo e as posses conquistadas através deste trabalho. O verso 12 do capítulo 5 é um exemplo disso: ”Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir.” (Ec 5:12). Quer coma pouco, quer coma muito, o trabalhador come do suor do seu trabalho e nada tem a temer por isso. Sabe como conquistou o direito de tomar parte em uma refeição em sua casa e tem plena consciência do custo do pão. O rico que não age bem, que tem sua mesa posta sobre o abuso do pobre, que garante o seu vinho pela exploração do trabalhador, que precisa mentir e se esconder para não ser descoberto do pecado que torna possível os banquetes suntuosos todas as noites em sua casa, este não terá tranquilidade e será sempre assombrado.

O texto que vai de Eclesiastes 5:13 a 6:9, Qohelet fala a respeito de dois dentre os quatro grandes males que observou sob o sol. A primeira é o postergar a felicidade em função do objetivo de gozá-la no mais tardar. Um dos apelos de maior força em Qohelet é que o trabalhador desfrute do produto do seu trabalho. Sob a certeza da brevidade da vida humana o autor valoriza o campo de possibilidades que é o hoje em detrimento da eterna especulação do amanhã.

Grave mal vi debaixo do sol: as riquezas que seus donos guardam para o próprio dano. E, se tais riquezas se perdem por qualquer má aventura, ao filho que gerou nada lhe fica na mão. Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu voltará, indo-se como veio; e do seu trabalho nada poderá levar consigo. Também isto é grave mal: precisamente como veio, assim ele vai; e que proveito lhe vem de haver trabalhado para o vento? (Eclesiastes 5:13-16)

Assim como Shakespeare nos lembra pelas palavras de Hamlet: é possível pescarmos com um verme que tenha comido de um rei. Todos os homens igualmente são recebidos nus pela vida e entregue nus à morte. Os vermes não fazem distinção se nobres ou plebeus, somos todos alimento após fechamos nossos olhos. Nada podemos levar conosco e tudo o que acumulamos ficará. Trabalhar para acumular e jamais se regozijar no bom vinho é hebel, é vento. Por que então acumular se o dia de amanhã não nos pertence? Se em nossa fragilidade podemos perder tudo ou mesmo morrer? Será sábio estar sempre à espera de gozar felicidade no porvir quando toda a nossa ação se restringe ao que é possível fazer hoje e o amanhã não passa de mera especulação? Os versos seguintes do texto apresentam o encorajamento para que os olhos do sábio estejam no presente:

Eis o que eu vi: boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu; porque esta é a sua porção. Quanto ao homem a quem Deus conferiu riquezas e bens e lhe deu poder para deles comer, e receber a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus. (Eclesiastes 5:18-19)

Esse apelo se completa no em 11:1-8. O convite a desfrutar o presente não é uma licença à irresponsabilidade. Ao homem é facultada a capacidade de antecipar-se às adversidades, de investir esforços com vistas a suprir sua necessidade futura e essa capacidade não é acaso. Ao valorizar o tempo presente Qohelet não ensina um estilo de vida irresponsável, mas um equilibrado.

O segundo grande mal apresentado por Qohelet, tratado algumas linhas acima, é

o homem a quem Deus conferiu riquezas, bens e honra, e nada lhe falta de tudo quanto a sua alma deseja, mas Deus não lhe concede que disso coma; antes, o estranho o come; também isto é vaidade e grave aflição. (Eclesiastes 6:1-2)

O sábio é duro ao apresentar esse mal, pois diz que melhor teria sido ao homem ser abortado quando ainda no ventre da mãe do que viver penosos dias sem desfrute algum. (Eclesiastes 6:3-6) O quedar da morte vem para todos e não há como fugir deste destino. Mesmo uma multidão de herdeiros ou a longevidade, dons dos mais caros entre os hebreus, não valem de nada se a alma não tiver sido farta do bem. Tudo terá sido em vão, tudo terá sido correr atrás do vento. Tudo terá sido hebel.

CONCLUSÃO

O que diremos pois de Qohelet? Suas admoestações cruzam o tempo e o espaço, se deslocam do oriente para o ocidente por cerca de 2300 anos de história humana para presentear o homem individualista do século XX, o workaholic, aquele que negocia a própria saúde e suas relações familiares na busca de uma segurança futura sem sequer saber se haverá um futuro para ser assegurado. O texto de Qohelet é atual, pois a busca pela potência do ter que é o amor à riqueza não cessa e é um mal que vemos ainda hoje sob o sol.

Qohelet confronta o homem moderno. Para quê trabalhar tanto? Para quê acumular tanto? Tudo isso é vaidade, é correr atrás do vento, é fumaça. Se não há o partir do pão, vaidade. Se o hoje é mero meio para a autorrealização no amanhã, vaidade. Se não nos fartamos de nada que nos é dado e se não somos capazes de saborearmos do fruto do nosso trabalho, vaidade. Vaidade de vaidades – do superlativo hebraico – “é muita vaidade”! É com esse superlativo que começa e com ele que termina os escritos de Qohelet (Ec 1:2; 12:8) tudo é vaidade.

 

NOTAS

[1] Ver IV Excurso sobre a retribuição em Qohélet. In: LINDEZ, Jose Vilchez. Eclesiastes ou Qohelet: grande comentário bíblico. São Paulo: Paulus, 1999. pp.442-444. Também há no verbete Teologia da Retribuição, uma relevante discussão sobre o tema. VANGEMEREN, Willen A. (org.). Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento. Volume 4. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. pp.1129-1137.

[2] LÍNDEZ, 1999. p.449.

[3]   כֶּ֙סֶף֙ (Ec. 5:9 BHS)

[4]   הָֽבֶל׃

[5] Para uma exposição mais completa a espeito de hebel ver LINDEZ, 2011. pp.173-190.

 

BIBLIOGRAFIA

BONORA, Antonio. Guía espiritual del Antiguo Testamento: El libro de Qohélet. Barcelona, Madrid, Herder-Ciudad Nueva, 1994.

CERESKO, Anthony R. A sabedoria no Antigo Testamento: Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004.

GABEL, John B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia como literatura. São Paulo: Loyola, 2003.

GLASSER, Étienne. O processo da felicidade por Coelet. São Paulo: Paulinas, 1975.

LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohelet: grande comentário bíblico. São Paulo: Paulus, 1999.

LÍNDEZ, José Vílchez. Sabedoria e sábios em Israel. São Paulo: Loyola, 2011.

STORNIOLO, Ivo. Trabalho e Felicidade: O Livro de Eclesiastes. São Paulo: Paulus, 2002.

VANGEMEREN, Willen A. (org.). Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento. Volume 4. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.

VITÓRIO, Jaldemir. Fazer teologia com senso crítico: Qohélet – na contra mão das verdades inquestionadas. In: GASDA, Élio Estanislau (org.). Sobre a Palavra de Deus: hermenêutica bíblica e Teologia Fundamental. Petrópolis: Vozes; Goiânia: PUC Goiás, 2012. Pp. 69-87.

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